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Edicão n° 206 de Agosto 2020


Música auxilia no tratamento de pacientes com câncer
03/02/2020

Foi por acaso que a professora Angélica Mattos de Oliveira começou a participar das
sessões de musicoterapia do Hospital Moinhos de Vento. Aos 35 anos, ela descobriu que
tinha câncer de mama e iniciou o tratamento. Mas devido a uma questão envolvendo o
convênio, precisou trocar o dia da quimioterapia. Quando chegou à sessão seguinte,
encontrou a turma do projeto tocando e cantando para os pacientes.

“Eu estava triste, desanimada. Mesmo tentando manter o alto astral, uma hora a gente
fica mal. Mas as últimas sessões de quimio foram acompanhadas por música. Eu cantei,
dancei, ri, chorei. É muito bom. Diminui a dor, a ansiedade”, conta Angélica, que traz a
irmã Alice, de 12 anos, para participar das atividades.

Uma vez por semana, o silêncio ou as conversas num tom de voz mais baixo,
característicos dos quartos e corredores de um hospital, é quebrado por notas musicais,
vozes e até passos de dança. Desde maio de 2019, a musicoterapia foi incorporada às
metodologias e técnicas auxiliares de tratamento contra o câncer no Hospital Moinhos de
Vento. É a única instituição de Porto Alegre a oferecer essa opção aos pacientes.

Os benefícios sentidos por Angélica são confirmados pela coordenadora assistencial do
Serviço de Oncologia, Taiana Saraiva. Segundo a enfermeira, outras pessoas também
relatam diversas vantagens – como descontração, alívio da ansiedade, aumento da
sensação de bem estar e diminuição da dor. “Muitos que participam em alguma ocasião
das atividades pedem para voltar nos dias que a equipe da musicoterapia está no Centro
de Oncologia. E para familiares e profissionais, o dia fica mais agradável. Eles nos
contam que se sentem felizes ao observar que os pacientes estão mais alegres”, afirma.



Doses de música e cuidados

A supervisora da Psicologia Assistencial, Júlia Schneider Hermel, destaca que a iniciativa
integra o tratamento. Seria como prescrever uma medicação: tem dose, momento e
indicação. “A música atua com uma ferramenta que outras técnicas e métodos da área
da medicina e do cuidado não têm. É um agente cuidador na saúde”, aponta a psicóloga.

Para cada paciente, o benefício é diferente. Para alguns, acalenta e alivia; para outros,
anima e diverte. De acordo com Júlia, enfermeiros e psicólogos dizem aos
musicoterapeutas o que cada paciente tem e qual a condição deles. Com essas
informações, é possível pensar o estilo musical ou atividade apropriada para
determinada pessoa, em seu contexto e sua etapa do tratamento. “É diferente quem
recebeu o diagnóstico de quem está em tratamento. Alguns recebem intervenção
pontual, outros são acompanhados por mais tempo”, explica.

O projeto é realizado por meio de um convênio entre o Hospital Moinhos de Vento e as
Faculdades EST – Escola Superior de Teologia, única instituição a oferecer esse curso na
grande Porto Alegre. O Grupo de Musicoterapia é supervisionado pelas professoras da
graduação, e as atividades são desenvolvidas pelos alunos em estágio curricular.



Planos para o futuro

Coordenadora do curso, Laura Franch Schmidt da Silva ressalta que a primeira
experiência da turma dentro de um hospital já está dando resultados. “Há expectativa
de esses pacientes sejam guerreiros, fortes, para enfrentar a doença. Mas é um
momento no qual eles precisam também lidar com suas fragilidades. E a música ajuda
nisso. Ajuda a colocar para fora, a expressar e a entender que isso faz parte do processo
de luto e luta. Quando ele toca, canta e dança, ele se sente parte da vida e há
perspectiva, futuro”, detalha.

São as perspectivas e planos para o futuro que mantêm Suellen Coscia Bueno, de 31
anos, firme e com um sorriso no rosto, apesar do tratamento pesado. Ela tem no
pequeno Vitor, de 60 dias, a maior motivação. E na música, um apoio extra. “Sempre
quis me manter positiva. A música me ajuda nisso. Deixa a mente livre e é um alívio
para enfrentar as dificuldades desse momento”, ressalta.

Ela participa das sessões junto com o marido Cristiano e a irmã Chayenne – companhias
essenciais nas atividades do Grupo de Musicoterapia. “E agora com filho e o transplante,
em 2020 é ano novo e vida nova!”, planeja.

Laura cita o caso de Suellen como um exemplo de que a metodologia também é
importante para os familiares. “Dá energia para quem está ali, na sala de espera, e que
precisa estar bem e forte para cuidar de seu familiar paciente, mas ao mesmo tempo
está sofrendo junto. Ressignifica a parte difícil de estar num hospital trazendo também
sensações boas”, finaliza.



Acordes e histórias que tocam os profissionais


O projeto implantado em maio trouxe benefícios também para os profissionais do
Hospital Moinhos de Vento que atuam nos setores nos quais o Grupo de Musicoterapia
desenvolve atividades. A psicóloga Júlia revela que os colaboradores se mobilizam, e as
equipes acabam tendo maior engajamento. “Eles se motivam mais a cuidar do paciente
e disseminam essa prática em outras áreas. Melhora até as condições e o ambiente de
trabalho”, salienta.

A equipe da Psicologia Assistencial do hospital está elaborando um projeto de pesquisa
que medirá o impacto da metodologia na atuação e nas rotinas dos profissionais. Além
disso, o plano é ampliar o projeto em 2020. No ano passado, o Grupo de Musicoterapia
atendia pacientes oncológicos, da internação pediátrica e UTI Neo Natal.



Uma recomendação do Ministério da Saúde

A musicoterapia é uma recomendação do Instituto Nacional do Câncer (INCA) como
coadjuvante no tratamento contra o câncer. Desde 2002, a entidade ligada ao Ministério
da Saúde orienta a prescrição a pacientes. Os sons são escolhidos de acordo com cada
pessoa e sintoma. De acordo com o órgão, está comprovado que, no aspecto fisiológico,
a música é capaz de interferir na batida cardiovascular, no sistema respiratório e na
tonicidade muscular.






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