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Edicão n° 198 de Dezembro 2019


Saúde orienta sobre cuidados com crianças e adolescentes na era digital
15/04/2019

O uso excessivo da internet por crianças e adolescentes e os riscos associados preocupam
pais, educadores e profissionais da saúde. O mundo virtual é uma ferramenta de
aprendizagem e socialização para os jovens, mas é um espaço que os deixam vulneráveis a
conteúdos inapropriados ou, ainda, reféns da criminalidade online.

Redes de pedofilia, ciberbullying, assédio e violência sexual, jogos e desafios que induzem à
autoagressão e ao óbito por suicídio estão entre os perigos da era digital. Com o intuito de
alertar a sociedade para esses riscos, neste mês o Comitê Estadual de Promoção da Vida e
Prevenção do Suicídio divulgou nota de esclarecimento sobre jogos virtuais para os meios de
comunicação, familiares e população em geral.

A psicóloga do Núcleo de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis do Centro
Estadual de Vigilância em Saúde, Nathalia Fattah, explica que o suicídio é um fenômeno
complexo e multifacetado, que nunca resulta de um único evento, como a reprovação em um
exame ou o término de um relacionamento.

Ocorre pela interação de diversos fatores, como discriminação, violência, conflitos familiares,
transtornos mentais e comportamentais, uso prejudicial de álcool e outras drogas, traços
significativos de impulsividade e agressividade. Uma tentativa prévia é o principal fator de
risco isolado para uma morte por suicídio. Pais, responsáveis e profissionais envolvidos devem
ficar ainda mais atentos quando um jovem apresenta tentativa de suicídio.

Ansiedade e isolamento

Familiares e educadores precisam estar atentos a mudanças no comportamento do jovem,
como aumento da ansiedade, isolamento, afastamento da família e de amigos, adesão ao
cyberbullying, agressividade, baixo rendimento escolar e transtornos de sono e de
alimentação. Esses sinais não devem ser considerados isoladamente, mas chamar a atenção,
sobretudo, se muitos desses aspectos se manifestam ao mesmo tempo. Esse comportamento
pode esconder uma ideação suicida. Lesões autoprovocadas também apontam para esse risco.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é a segunda principal causa de
morte em todo mundo para pessoas de 15 a 29 anos de idade e mata mais jovens do que o
HIV. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que a morte por lesão autoprovocada
aumentou em 30% nos últimos anos, na faixa etária de 15 a 19 anos.

Desde junho de 2011, as tentativas de suicídio se tornaram agravos de notificação
compulsória e, desde 2014, de notificação imediata nos serviços de saúde públicos e privados
em todo o território nacional. O que indica a necessidade de acionamento imediato da rede de
atenção e proteção para a adoção de medidas adequadas a cada caso.

Prevenção

A sensibilização dos profissionais de saúde que atuam na rede de assistência é importante
para ampliar e qualificar as notificações. “Assim podemos atuar a partir da realidade do Estado
e dos territórios, desenvolver estratégias de prevenção e organizar os fluxos assistenciais”,
avalia a psicóloga.

Neste ano, o Programa Estadual de Vigilância da Violência Interpessoal e Autoprovocada
completa 10 anos. Nesse período, foram realizadas capacitações permanentes em todas as
regiões do estado para trabalhadores e gestores das redes de saúde e intersetorial. Os
profissionais de saúde também precisam estar preparados para atuar no acolhimento e na
escuta qualificada de usuários com risco de morte por suicídio.

A psiquiatra do Hospital Psiquiátrico São Pedro, Roberta Rossi Grudtner, destaca que o suicídio
pode ser evitado em 90% dos casos e, por isso, é altamente prevenível. “As pessoas não
querem acabar com a vida, ao contrário, querem alívio do sofrimento. O conteúdo recorrente
do pensamento sobre morte, morrer, querer se matar é um sintoma, ou seja, é sinal de grave
adoecimento que se reflete em comportamento(s) de risco” afirma Roberta.

Segundo ela, o enfrentamento ao suicídio passa também por uma mudança cultural, pois a
morte por lesão autoprovocada ainda é encarada como um tema tabu. “Precisamos avançar ao
falar e orientar a população sobre o assunto”, avalia.

Exilado no mundo virtual

Familiares e amigos devem estar atentos ao que escutam, enxergam e sentem e perguntar
diretamente ao identificar que alguém está estranho, diferente, inquieto ou assustado.
“Pergunte, influencie, aja: isto salva vidas”, esclarece. Se a pessoa está em sofrimento e,
nestes casos, correndo risco, sentirá alívio ao saber que pode contar com alguém para buscar
ajuda nos serviços de saúde ou atendimento de profissional da área de saúde mental.

“No caso dos jovens, os pais e responsáveis devem controlar a qualidade, intensidade e o
tempo de uso da internet. Devem observar se esta criança ou adolescente está exilado no
mundo virtual”, alerta a psiquiatra. De acordo com ela, estudos indicam que mais de uma hora
por dia de exposição a telas de TV, computador, celular ou outros dispositivos, especialmente
depois da 19h, começa a atrapalhar o sono, o desenvolvimento e a memória.

“Antes, os pais tinham a preocupação de orientar os filhos a não conversarem ou brincarem na
rua com desconhecidos. A tendência hoje é achar que os filhos estão protegidos em casa. Só
que um jovem passar uma tarde sozinho navegando na internet e nas redes sociais e se
comunicando com uma pessoa que conhece pelo mundo virtual traz os mesmos riscos. Com o
fenômeno da internet, os perigos da rua também estão presentes no ambiente doméstico, pois
a rede é um espaço público e aberto”, avalia.

Roberta orienta ainda que é preciso equilibrar as horas de jogos online com o convívio em
família e amigos, atividades esportivas, brincadeiras, exercícios ao ar livre ou em contato
direto com a natureza.

Ela explica que o computador não pode ser de uso individual para uma criança ou adolescente.
Os pais ou responsáveis devem ter a senha de acesso a esses dispositivos. Esclarece que,
nesse processo, é fundamental a família manter diálogo com os jovens, orientando e
informando sobre os riscos do ambiente virtual. “Só o fato de os pais saberem a senha de
acesso dos jovens já os protege e desperta para um uso mais consciente e responsável destas
mídias, pois isso pressupõe um diálogo anterior sobre o tema e passa a mensagem: estou
aqui para te defender e proteger”, informa a psiquiatra.

Em relação ao tratamento, Roberta acrescenta que o preconceito e o tabu podem ser barreiras
para a solução do problema. “Ao longo da vida, teremos fragilidades específicas e dificuldades
importantes, mas temos ferramentas para superarmos esses momentos. É possível unirmos
esforços para assegurarmos uma vida e um desenvolvimento mais protegidos, tranquilos e
funcionais nesse processo de transformação de jovens em cidadãos”, conclui a psiquiatra.

Locais para buscar ajuda:

– Unidades Básicas de Saúde (Saúde da Família, Postos e Centros de Saúde)

– UPA 24H, Samu 192, Pronto Socorro, hospitais

– Centros de Apoio Psicossocial (Caps), uma iniciativa do SUS

– Centro de Valorização da Vida – telefone 188 (ligação gratuita)






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