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Edicão n° 186 de Dezembro 2018


“Instabilidade institucional compromete desenvolvimento do País”, afirma painelista
03/08/2018

A importância das instituições para o bom funcionamento de uma sociedade e as
necessidades de ajustes nessas estruturas para alavancar o desenvolvimento do Brasil
foram o assunto da conferência de abertura do Painel Constitucional, na tarde desta
quinta-feira, O2, durante o XIV Congresso Estadual do MP, em Gramado. Na palestra “O
futuro do Ministério Público e o neoconstitucionalismo: a lógica das instituições e a lógica
dos direitos no Estado Constitucional”, o doutor em Ciências e mestre em Direito Marcus
Paulo Rycembel Boeira avaliou o período atual como de “profunda instabilidade
institucional”. E responsabilizou esse status pela estagnação do desenvolvimento da
nação.

Estabelecendo uma metáfora, Boeira comparou as instituições à casa de qualquer
pessoa. “As instituições constituem a casa de um país. E quando essas instituições não
estão bem adequadas, o resultado é que os ajustes, os compromissos, as demandas, as
exigências e as expectativas das pessoas jamais poderão ter um horizonte previsível,
garantido por essas mesmas instituições”, afirmou. Para ele, é preciso arrumar a casa.
“Não se sobrevive sob escombros. Um país não vive sem boas instituições. Sem elas,
não há previsibilidade sequer nos nossos projetos pessoais. É como se eu abrisse uma
empresa, por exemplo, e, no dia seguinte, o Parlamento ou quem quer que seja
decidisse aumentar a carga tributária monstruosamente, impedindo minha empresa de
prosperar”, disse.

PAPEL DAS INSTITUIÇÕES

Boeira alertou para a necessidade urgente de agir para evitar o pior no país. “Nosso país
padece de boas instituições, capazes de organizá-lo. Mas, para isso, temos de discernir
as funções que cada instituição irá desempenhar, o que cada uma deve alocar, o que
cada uma deve absorver. E se não tivermos claro quem deve fazer a defesa da
Constituição, o controle da constitucionalidade, e portanto o julgamento das leis, muito
pouco poderá ser feito”, ressaltou.

Para ele, as instituições que têm o dever funcional de custodiar a ordem jurídico-política
e civil, como o Ministério Público, têm mais que um dever. Elas têm um chamado
republicano para refletir e lutar por uma adequação dessas instituições. “A fiscalização
da lei e da ordem, tarefa precípua do MP, juntamente com o interesse público, com os
valores da República, exige atenção a isso. Não adianta tapar buraco. É preciso resolver
o problema. E isso pressupõe que você construa uma estrada nova. Ou o buraco vai
voltar”, advertiu.

Mas como alcançar esse objetivo e superar o que chamou de “agenciadores do estado
profundo, as instâncias de poder que são invisíveis”? Boeira acredita que esse é o
compromisso de todo patriota: trabalhar pela República. “As pessoas precisam acordar e
perceber que a máquina, um dia, vai parar. Vamos esperar parar, esperar que o país
esteja destruído? Ou vamos tentar arrumar antes?”, perguntou.

ESTADO DE DIREITO

O painelista vê com pessimismo o estado de Direito no Brasil, tal como desenhado
atualmente. E, por isso mesmo, enxerga saídas necessárias, que, segundo ele, estão na
ordem do dia. “Detectá-las não é nenhum artifício engenhoso. Todas as grandes
democracias do continente europeu do século 20 passaram por esse processo. Os
espanhóis, os franceses, os italianos, os alemães tiveram experiências profundas, que
resultaram em catástrofes, ditaduras ou até em regimes totalitários, como fascismo e
nazismo, e que obrigaram esses estados de Direito a modificar seu padrão institucional e
amplificar as instituições para aumentar a fiscalização e o controle recíproco”,
exemplificou. Boeira ponderou, ainda, que tirar do Poder Judiciário o controle de
constitucionalidade seria bom para o país. “Esse é o ponto! Permitiria, inclusive, que o
Judiciário atuasse no controle sobre o órgão que fará a gestão da constitucionalidade.
Você aumenta e potencializa uma cultura do compliance, amplificando as estruturas de
controle e permitindo que uma instituição fiscalize a outra, enquanto a sociedade
fiscaliza todas. Esse me parece o caminho desejado, o caminho republicano”, disse.

Conforme Boeira, entretanto, estamos muito longe desse ideal. Isso porque, dentro das
instituições “anacrônicas” do Brasil há estruturas invisíveis de poder, que ocultam
narrativas e impedem a sociedade de desejar a República. “Nos conformamos com o
estado de coisas. O Estado nos impede de agir, de criar, de produzir. As nossas
capacidades produtivas são anuladas em prol de uma imensa burocracia, que tira quase
a metade do que produzimos e que não nos capacita. Ao contrário, nos convida à inação.
E, com a visão paternalista da cultura brasileira, adicionada a esse conformismo, impede
um horizonte de prosperidade”, criticou, fazendo, também, um convite à mudança.

Fotos: PG Alves/MPRS






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