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Edicão n° 185 de Novembro 2018


SBGM defende uso de ácido fólico no primeiro trimestre de gestação
12/07/2018

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), ou simplesmente autismo, é um transtorno do
neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades de comunicação e interação social,
interesses restritos e comportamentos repetitivos. Apresenta uma prevalência que varia
de 1 a cada 68 até de 1 a cada 59 pessoas, de acordo com estudos mais recentes.
Devido sua prevalência e por ser um transtorno muito estudado ao redor do mundo, é
comum que diversas pesquisas busquem associação do TEA com fatores genéticos e
ambientais. Entre esses estudos, um que tem sido amplamente divulgado e
compartilhado na mídia é sobre o uso de ácido fólico na gestação e o aumento do risco
de autismo.

O ácido fólico é um composto que tem grande importância para o período embrionário,
em especial nos primeiros meses do desenvolvimento do feto, já sendo bem
estabelecida, desde a década de 70, a sua relação como protetor contra malformações.
Quando o casal está planejando uma gestação, já é comum que antes de engravidar a
mulher comece a tomar ácido fólico diariamente, uso que se mantem ao longo dos
primeiros três meses da gestação. O uso do ácido fólico protege principalmente contra
malformações de fechamento do tubo neural, que pode levar nos casos mais graves à
anencefalia. Esse efeito protetor, como já citado, é bem estabelecido em literatura
científica e orientou inclusive ações de saúde pública como a fortificação do ácido fólico
na farinha de trigo, como acontece no Brasil desde 2004.

Apesar de ter esse efeito protetor confirmado, nos últimos tempos o ácido fólico tem
sido visto como um vilão por parte da população, recebendo notoriedade em diversos
veículos de comunicação e redes sociais devido a um possível risco causal de autismo.
Existem vários trabalhos na literatura médica sobre a relação do ácido fólico e autismo,
com diversos estudos mostrando o valor dessa associação.

Dois estudos principais levantaram essa hipótese de que o ácido fólico é um fator de
risco para autismo. Inicialmente, um artigo publicado em 2014 por um grupo espanhol
concluiu, após avaliar 2213 crianças, que mulheres que usavam dosagens maiores de
5mg de ácido fólico durante a gestação apresentavam um risco maior de ter filhos
portadores de transtornos do neurodesenvolvimento, como quadros de atraso do
desenvolvimento. Porém o estudo que mais ganhou notoriedade foi apresentado em
2016 durante o Encontro Internacional de Pesquisa do Autismo (tradução livre de
International Meeting for Autism Research), no qual, em uma palestra a médica
Margaret Daniele Fallin trouxe resultados preliminares de um estudo que sugerem que o
uso em excesso de ácido fólico e de vitamina B12 podem estar associados com autismo.


Entenda o caso:

Nesse momento é importante observar dois pontos. O primeiro é que ambos referem
que se há um risco, esse é referente ao uso de altas dosagens de ácido fólico. A
dosagem de ácido fólico recomendada atualmente para as gestantes é de 400 a 800
microgramas, algo muito inferior ao que os estudos definem como alta dosagem (que
seria maior de 5 miligramas, ou seja, 10 vezes a mais do que o recomendado). O
segundo ponto é que, apesar do estudo da médica Margaret Fallin ter sido apresentado
com seus resultados preliminares em 2016, o estudo final publicado em janeiro de 2018
trouxe novas conclusões a respeito. O resultado não apresenta informações a respeito
das dosagens do consumo do ácido fólico, mas sim de frequência, demonstrando que o
consumo de ácido fólico durante a gestação menor de 2 vezes por semana, assim como
um consumo maior de 5 vezes por semana, está associado a um aumento de risco para
TEA. Ela observa que o consumo moderado, de 3 a 5 vezes por semana apresenta um
efeito protetor contra o desenvolvimento de TEA, algo já demonstrado em estudos
anteriores.

Paralelamente, existem vários estudos que demonstram resultados contrários, com o
ácido fólico tendo efeito protetor para o desenvolvimento de autismo. Em 2010, a
médica Sabine Roza publicou um estudo no qual fez o seguimento de 4214 crianças e
observou que o uso do ácido fólico durante a gestação apresentou um efeito protetor no
desenvolvimento de autismo quando comparado as crianças as quais as mães não
utilizaram ácido fólico. Outro estudo observou a dosagem de ácido fólico no sangue de
mães de filhos com autismo e de mães com filhos com desenvolvimento normotípico, e
foi possível observar que as dosagens de ácido fólico no sangue das mães de crianças
com o desenvolvimento normal é maior do que daqueles com autismo. Um outro grande
estudo publicado em 2014, que acompanhou 3893 crianças até os 6 anos demonstrou
não só o efeito protetor do uso de ácido fólico contra o desenvolvimento de autismo,
mas que as mulheres que usaram ácido fólico já antes de engravidar apresentavam
índices menores de ter filhos com autismo do que aquelas que começaram o uso do
ácido fólico quando identificaram a gestação.

Estudos semelhantes se repetiram, com número de pacientes e metodologias diferentes,
e levou a uma grande revisão sistemática publicada em Novembro de 2016. Nesse
momento é importante entendermos que revisão sistemática é um tipo de estudo que
realiza a revisão de vários estudos diferentes, comparando os pontos fortes e fracos e as
conclusões de cada um, tirando uma conclusão geral sobre esses estudos. Devido a
forma como é feita a análise, as revisões sistemáticas são consideradas estudos com
alto grau de evidência, portanto tem grande credibilidade. Essa revisão realizou a análise
de 22 estudos sobre o uso de ácido fólico como fator de risco ou fator protetor para o
transtorno do espectro autista e transtornos do neurodesenvolvimento, e concluiu que
dos 22 artigos, apenas 1 continha informações sobre o ácido fólico sendo fator de risco
para o desenvolvimento de autismo (lembrando que na época que essa revisão foi
realizada o estudo da médica Margaret Fallin ainda não estava publicado), com 6
estudos mostrando que não há uma relação estatística entre o uso de ácido fólico e o
desenvolvimento de autismo e 15 estudos mostrando um efeito protetor e benéfico
quanto ao uso de ácido fólico frente ao autismo.

Em resumo, o que podemos concluir é que o uso do ácido fólico durante a gestação, se
usados na dosagem adequada e recomendada de 400 microgramas, tem efeito protetor
quanto ao desenvolvimento de autismo, algo que todos os estudos concordam, e
portanto não é um fator de risco.

A Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica (SBGM), com base nesses
estudos, se posiciona a favor do uso de ácido fólico nas mesmas recomendações
realizadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), pela Federação Brasileira das
Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e pelo American College of Medical
Genetics (ACMG), ou seja, o consumo de 400 microgramas por dia, idealmente já
iniciando um mês antes da gestação, seguindo até o terceiro mês da gestação, que além
de ter seu efeito protetor confirmado já é comprovadamente seguro para a mãe e o
bebê.






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