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Edicão n° 184 de Outubro 2018


A desigualdade no Brasil e a utopia da transformação
01/11/2017

A sociedade brasileira vem enfrentando enormes dificuldades nos últimos anos.
Corrupção endêmica, violência urbana, altas taxas de desemprego, uma grave crise
ética, falta de confiança em sua classe política são sinais claros da falta de esperança em
um futuro promissor. Como resultado imediato, aumenta o número de jovens e mesmo
de famílias constituídas que decidem construir suas vidas no exterior, refazendo o
caminho inverso de seus antepassados, 100 anos atrás.

Mas, será que a nossa sociedade tem consciência de que esta crise não é de agora? Será
que ela procura refletir as verdadeiras causas de seu infortúnio? Mais ainda, será que
ela, tomando consciência das causas reais, tem condições de combatê-las
transformando esse cenário caótico?

Não tenho a pretensão de dar uma solução definitiva à grave crise vivenciada pela nossa
população, mas gostaria de refletir sobre três pontos que considero fundamentais e que
estão na raiz de nossos problemas sociais. Claro que nossa crise não é de hoje. Nosso
flagrante atraso social vem de muito tempo, mesmo comparado a países cujos recursos
são infinitamente menores que os nossos. Minha proposta, aqui, é debater sobre temas
como a baixa escolaridade, a enorme desigualdade social e o paquidérmico tamanho do
Estado brasileiro.

A baixa escolaridade vem desde os tempos de nossa colonização europeia. Colonização
essa que foi exploradora, predatória e oportunista. Nossos primeiros colonizadores não
vieram para se estabelecer na terra, criando uma nova vida, construindo uma nova
sociedade. Vieram explorar as riquezas naturais, utilizar mão de obra escrava, juntar o
máximo de dinheiro possível e voltar para a metrópole enriquecidos. Sob esta visão, a
educação nunca atingiu um papel relevante, afinal os nobres exploradores preocupados
com a educação de seus filhos, envia-os para estudos na Europa. E para quê escravos
precisavam ler e escrever?

A independência política não modificou substancialmente esse quadro. O Brasil faz
censos regulares desde 1872 e, desde 1890, a cada 10 anos. Em 1890, início do período
republicano, a taxa de analfabetismo no Brasil beirava os 90%.

Nossos primeiros cursos de estudos superiores só foram instalados no início do século
XIX e nossas primeiras universidades, apenas, em 1934, por decreto do então
presidente Getúlio Vargas. A partir da década de 70, há um enorme declínio na
qualidade da escola pública de ensino básico, com gravíssimas consequências para a
nossa população. Hoje, estima-se que em torno de 30% dos brasileiros maiores de 15
anos são analfabetos ou analfabetos funcionais (não têm capacidade de interpretar um
texto).

A escola básica nunca foi uma verdadeira prioridade na política de Estado; ao contrário,
é apenas usada como propaganda eleitoral de governos inescrupulosos. Não há saída
para uma sociedade evoluída sem uma educação básica e massiva de qualidade.

O segundo ponto é a nossa enorme desigualdade social. De novo, um mal histórico.
Evidente que a economia brasileira cresceu e se diversificou muito desde o final do
século XIX, quando terminou a escravidão. Claro que ela permite uma ascensão social,
exemplificada em milhares de imigrantes que aqui chegaram sem nada, e se tornaram
industriais, banqueiros, empresários de sucesso. Sem dúvida, existem oportunidades,
mas são para a maioria da população?

Na sua essência, a escorchante distribuição de renda não muda, não importa a época,
não importa se há crise ou se a economia cresce muito ou pouco. A distribuição de renda
no Brasil é imutável, infelizmente. Os 10% mais ricos detêm cerca de 55% da renda
nacional, não importando o tipo de governo de plantão, enquanto os 50% mais pobres
respondem por 10% da renda. As poucas e esparsas políticas sociais, sempre com
objetivos eleitoreiros, são políticas assistencialistas, paliativas que não buscam uma real
e verdadeira transformação da situação existente.

Evidentemente, uma enorme parcela da população está condenada a viver em condições
de miséria e extrema pobreza, em estado de contínua degradação. Quanto mais essas
condições perdurarem, mais a sociedade brasileira estará condenada a viver no atraso e
em descompasso com os países mais avançados.

Sem uma distribuição de renda consistente, não teremos uma evolução em relação a
emprego, nem melhores condições de moradia, de transporte, de saúde, de uma melhor
oferta de bens e de serviços. O urgente avanço na distribuição de renda não é apenas
uma questão humanitária, é uma questão econômica, fundamental para o futuro de
todos.

Finalmente, a terceira parte de nossa reflexão: A gigantesca máquina pública, aqui
englobando os governos federal, estadual e municipal e os poderes executivo, legislativo
e judiciário.

A cultura latina, de onde somos originários, é famosa por seu grau de apadrinhamento,
nepotismo e burocracia. Esses elementos, sordidamente combinados, fizeram a máquina
pública inchar mais e mais, sem parar, ao longo de décadas. Este inchaço traz como
agravante, a necessidade insaciável de arrecadação de impostos. Além disso, o governo
em geral, proporciona uma má qualidade de serviços, penalizando quem quer produzir.

As empresas estatais, ainda que necessárias quando da sua criação, ao longo do tempo,
mostraram-se ineficientes, caras e com focos contínuos de corrupção, um cabide de
empregos disputados por políticos e apaniguados. Não por acaso, o Brasil possui o pior
retorno sobre impostos arrecadados, entre as trinta principais economias do mundo.

A máquina pública brasileira já se revelou obsoleta, ineficaz, lenta, burocrática e
corrupta. Os recursos despejados em impostos são gastos com folha de pagamento, por
meio de vultosas aposentadorias e pensões, mordomias nababescas, cargos de
confiança, entre outros, faltando dinheiro para a segurança, a saúde, a educação, a
infraestrutura, o que afeta a vida de milhões de brasileiros.

Nunca se ouve falar em redução de gastos, mas sempre na necessidade de arrecadação
de mais impostos. O governo brasileiro é uma vergonha.

A sociedade brasileira precisa enfrentar esses três pontos de frente. Qual a saída? A
sociedade civil deve estar comprometida com as mudanças estruturais. Claro que
estamos acostumados a depender do governo como um salvador da pátria, mas já
tivemos muitos e nenhum resolveu, e ninguém resolverá.

Devemos fazer a parte que nos cabe, sermos protagonistas de nosso destino, procurar
incentivar e apoiar toda e qualquer medida que favoreça a educação. Não devemos
explorar o próximo e contribuir de todo modo para uma maior e mais equitativa
distribuição de renda.

Lutar, com todas as forças, para pressionar o governo a não aumentar a carga
tributária, na verdade deve diminuí-la. Assim estaremos, efetivamente, trabalhando
para uma transformação de nossa sociedade. Utopia? Pode ser, mas lembre-se que
utopia é algo muito difícil, mas não impossível, de ser alcançado.


Por Celso Luiz Tracco *
*Master coach, palestrante e escritor. Acaba de lançar o livro "Às margens do Ipiranga",
que tem como pano de fundo a desigualdade social brasileira.






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